quarta-feira, 15 de junho de 2011

Começando a bossa nova

" Essa última parte da história - minutos antes de a bossa nova se materializar - pode ser contada também da seguinte maneira.
    Nos dez ou doze anos que se seguiram ao fim da (Segunda) Guerra, a música popular brasileira morou nas boates, que ficaram quase todas em Copacabana. Seus frequentadores sabiam viver a noite: eram grã-finos, playboys, diplomatas, empresários, industriais, políticos, advogados, jornalistas e muita gente de fora - homens viajados, de terno bem cortados, com garçonnière no centro da cidade, muito ou nenhum dinheiro no banco e alguns com estreitas relações no Palácio do Catete, sede do governo federal. As mulheres por sua vez, eram bonitas, chiquérrimas, vamps e fatais, com vestidos generosamente decotados, comprados na Casa Canadá, e com hora cativa diária no salão ou  no cabeleireiro.
    As boates eram o templo de uma boemia adulta, inteligente, que fumava cigarros americanos, tomava uísque 12 anos e vivia as paixões mais sofridas e insolúveis da história da humanidade.Não eram apenas certos homens que se martirizavam ao ver esta ou aquela mulher deslumbrante adentrar a boate de braço com o bolha do marido medíocre e poderoso. Eram todos. E eram também certas mulheres que se descabelavam em silêncio porque o homem de seus sonhos, sentado à mesa ao lado, era casado com sua melhor amiga.
    A música produzida em tal ambiente acompanhava essa dor de cotovelo quase cósmica: belos samba-canções, sofisticados melodicamente, mas já meio chocos ritmicamente e arrastando letras pesadas e soturnas, que diziam coisas como "Ninguém me ama/ Ninguém me quer / Ninguém me chama / De meu amor". Ou: "Garçom, apague essa luz/ Que eu quero ficar sozinho". Ou ianda: "Risque / Meu nome do teu caderno / Que eu não suporto o inferno / Do nosso amor fracassado"- letras que apenas retratavam o sentimento ali reinante.
    Que fossa! E, às três ou quatro da manhã, o martírio começava a se reflitir no aspecto das pessoas: as mulheres tinham a maquiagem borrada, o cabelo desfeito, vestido amassado ; os homens, cada vex mais sofridos, enxugavam garrafas e ficavam incovenientes. Com todas as portas e janelas fechadas, não se sabia se ainda era de noite ou se já era de manhã lá fora. E também ninguém queria saber.
    Até que, certo dia, por valta de 1958, algém se arrastou até a porta e a abriu. O sol entrou pela boate e quase transaformau aqueles vampiros em pó. Mas eles, armados de coragem, saíram à calçada - a princípio, cambaleantes, meio cegos pela luz - e constataram, surpresos, que a praia parecia chamá-los. Magicamente então não estavam mais em Copacabana, mas em Ipanema. Ad moças a caminhos do mar já não eram as vamps, as mulheres fatais , com olhar duro, o rímel escorrido e uma alça do vestido preto caindo pelo braço, mas as meninas, os brotos de biquíni, as garotas douradas. Todos, até mesmo eles pareciam de repente mais jovens. E a música não era mais o samba-canção, a dor de cotovelo, a fossa, mas a bossa nova."
Rui Castro,  Canções do Rio.

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